domingo, 3 de março de 2013
Murmúrio Do Sonhador
Penso que não há outra saída, senão a própria virtude da honestidade, personagem emboscado entre a parede e a própria consciência da necessidade de lhe falar. Penso. Apenas penso e as palavras morrem. Tenho medo de ser sincero, de dizer que não findou-se, entretanto temo o próprio medo. Obtuso pensamento a me perseguir. Questionamento infindável advindo do próprio delírio e do torpor de não saber como me sinto.
Fumaça. Eterna companheira, o filtro vermelho jaz nos lábios. E novamente me pego pensando. Apenas isso, e eu penso o dia inteiro. Apenas uma palavra e eu gostaria de te tomar para mim. Te levar para longe, onde eu possa desfrutar dos teus amores. Uma noite seria suficiente para eu me embriagar nos teus carinhos, nas tuas volúpias. Na impossibilidade de ser teu.
Ó sofreguidão sem zelo, quase soa como um deleite póstumo de um coração pútrido. O vinho embriag’alma enquanto tua imagem permanece no âmago ébrio solitário que palpita aos teus dizeres. Como podes, tu, dama da lua, fazer-me dessa forma divagar? Tropego em meio à frases versadas; na tentativa diletante de transformar-te em versos, pois os versos se transmutam em parágrafos pela impossibilidade poética de acolher os vislumbre que tenho de ti.
Uma noite eu tive um sonho, e tudo era lindo. O mundo nos pertencia e a areia da praia era morna. Tua mão pairava sobre meu rosto. Crescia no amálgama do toque a pura sensação do gosto. O gosto do gozo, o gosto de gozar a tua presença. E nada mais havia. O velho sôfrego dera lugar à poesia. E a alma jazia no absoluto da infinitude. E eu sabia, o sonho acabaria e tudo desfar-se-ia.
E eu acordei. Acordei e sonhei acerca do dia em que tua mão em mim tocaria. E tudo far-se-ia novamente alegre.
segunda-feira, 18 de junho de 2012
Memória De Um Passado Presente. [Padrinho]
A.L.F. (Padrinho, Tio, Pai, Irmão, Filho, Marido, Amigo.)
segunda-feira, 2 de abril de 2012
Memória [enfumaçada].
terça-feira, 20 de março de 2012
Carta.
A ideia básica do exercício fora criar uma narrativa de cunho memorial, esse texto deveria partir da perspectiva feminina da personagem "Conceição" do conto "Missa Do Galo", de Machado de Assis.
Senhor Nogueira.
Muitos anos se passaram desde nossa última conversa. Lembro-me claramente de cada instante daquela noite, sim, as circunstâncias eram outras e fomos, de súbito, interrompidos pelo horário da missa. Pensemos o quão irônica é a vida, cá estou, oito anos passados, escrevendo-lhe, pois recordo-me como se fosse ontem.
Prendia-me, naqueles tempos, às pudicicias de uma dama, claramente não seria capaz de descrever a qualquer outra pessoa todas as sensações daquela noite. Os tempos eram outros, mas tudo se faz diferente, daquele dia os tempos vindouros semearam a paz do meu espírito e desfizeram as correntes que me prendiam.
Enquanto escrevo, me questiono constantemente sobre quais seriam os pensamentos que terás, posso afirmar, de forma primeva, hoje sou viúva, essa talvez seja a mais forte razão pela qual te escrevo, não me encontro mais banhada pela vergonha dos adultérios de meu falecido marido, sou, de certa forma, livre. Mas peço que poupes os julgamentos.
É bem verdade que naquela noite, meu marido se ausentara para seu passeio no “teatro”, mesmo consciente dos adultérios, afoguei todo o ciúme e a angústia em um poço e o tampei com uma pedra. Porém, chegaste e me deste atenção, me senti como envolta em teus braços, naquele momento eu era sua e seria capaz de fazer tudo o que me fosse pedido. Enquanto minhas mãos apoiavam minha cabeça, eu o fitava como um príncipe capaz de me resgatar, fora como uma paixão arrebatadora duradoura de apenas alguns momentos.
Ainda me lembro do meu manto pudico, das máscaras de outrora, também me lembro do desenho dos teus lábios, lembro-me do desejo de querer ser sua; temo tais palavras, caminho sobre um terreno bastante complicado, o desejo. Mas eu imaginei, Senhor Nogueira, imaginei tuas mãos tocando meus joelhos, tua boca tocando minhas mãos. A missa daquela noite fora diferente, me encontrava emersa em um líquido pecaminoso chamado desejo, daquela noite em diante eu não merecera mais nome de santa, mesmo não me arrependendo jamais de tais ímpios pensamentos. Fui frívola, bem sei, mas resguardo a mim o sentimento de ter desejado o senhor.
Hoje não posso reclamar da vida, fui afortunada ao te conhecer, percebi o quanto me prendia aos conceitos pré estabelecidos desta sociedade criada por homens, é raro perceber isso até recostar-se no leito de morte. Sim, a tuberculose tocou meus pulmões, creio que, também, agravada pela sífilis passada a mim pelo finado meu marido. Desejo a ti uma vida longa e próspera, rogo para não seres tocado por terríveis enfermidades e rogo, também, para que, de alguma forma, sempre tenhas alguma recordação daquela
noite. Já é hora da missa, no entando não conto nem com a tua presença, nem com saúde suficiente para rezar. Lembre-se de mim como aquela a ter coragem de escrever tal carta, não como a moribunda que não teve coragem de tomá-lo nos braços.
Com carinho,
Conceição.
quarta-feira, 14 de março de 2012
Espólio
domingo, 11 de dezembro de 2011
Outro dia. Outra hora. Outra Aurora.
domingo, 18 de setembro de 2011
Espaço - Eu
quarta-feira, 17 de agosto de 2011
Às margens de um reflexo
Paz resultante de adventos diabólicos que outrora repousavam pacificamente ante a mesa de centro, ao lado das recordações. Repousei a pena e desfaleci sobre uma velha poltrona. Acendi um cigarro. Traguei. Pensei.
Recordo-me de tempos advindos de um plano simulado, um universo que outrem insistem em julgar como verdadeiro e absoluto, porém, de caráter meramente ludibriador. Retornei aos meus pensamentos que, entre uma divagação e outra, tornavam-se elípticos, anafóricos; sentia-me preso à uma redoma de vidro e caminhando sobre o chão repleto de medos.
O caminho – ou como alguns chamam: destino – reserva suas maiores belezas para momentos onde os efeitos providos da catarse possam resplandecer em sua aurora divina e manifestar-se sobre melancólicos corações púrpuros. Resplandeceu na aurora, sob a forma de um pequeno ser, um anjo que, sob minha atmosfera nostálgica, soube despertar o desabrochar das flores e os encantamentos dos mais belos jardins.
Interrogações são sempre pertinentes, mas existe algo de mais puro e encantador à face de um pequeno anjo que repousa sobre as nuvens da tempestade?
Infelizmente, meus pensamentos não passam de divagações meramente organizadas em níveis narrativos repletos de núcleos e catálises. Como um veneno a espalhar-se pela corrente sangüínea, são apenas sonhos que embriagam minh’alma e semeiam as turvas sementes da esperança. Malícia, esta, a que provém as sementes sem a certeza da colheita; antes eu semeasse ventos em prol da colheita da tempestade, entretanto, ventos tortuosos compõem o motivo da minha deriva.
Outrora, em um divã, recostava-me ao relento a fim de apenas refletir sobre a ousadia (in)ousada de toda a figura poética compreendida entre meus funestos pensamentos, a pena e o tinteiro: percebi, então, a extrema proximidade entre o “eu” e o “eu-autor”, mas o autor está morto, já diria Barthes, sim, no discurso o autor não passa daquele que assina; por isso, mais uma vez penso, quem sou eu a escrever? Quem é o eu que escreve? Apenas a linguagem me dominando e fazendo-se escritura?
Sobreponho minha imagem sobre uma antiga foto, reparo em todas as mudanças, percebo apenas a existência do único traço em comum a tudo, uma singela pena, um pequeno tinteiro. Escritura, minha pessoal escritura da diferença, e não que a ordem do discurso venha a alterar quaisquer intertextos por mim traçados, mas debruço-me sobre pequenas observações e percebo que a lua, povoada por ovos, apenas espreita-me com um olhar significativo e ressoa em suas melodiosas palavras:
- Não penses, tu, que meus olhos não te enxergam, não esqueças, cá estou eu.
E minha significativa olhada apenas representa tudo o que sou; apenas mãos que escrevem, dominado pela mentalidade e pela linguagem, eu apenas cedo às doces tentações das palavras e as coisas.