terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Ad Continuum

Então o que há de mais perverso senão o caminho em-si a se desdobrar num infinito desconhecido e literal? Qual a forma em sua (i) razão desvenda continuidade ou laço eterno?
O relativo apenas desfere como algo a gotejar numa calçada em meio aos transeuntes, e é nessa projeção entre o cheiro ocre e o gosto doce que reside a continuidade. Eis, na imortalidade do espírito, onde o âmago se renova na pungência de cada encontro. Mesmo neste espaço onde o tempo é suspenso, o instante-ja, fugaz, escorre entre os dedos.
Na verdade, o ressonante inspira a ação instrospectiva à própria morte, por sinal, mas essa também é desfigurada pelo véu da continuidade oblíqua ao vício. Receio recriar o impossível, mas, no entanto, as pétalas são matéria prima da relevância eloquente de um gesto na escuridão efêmera de corpos uníssonos cujo roubo se dá no âmbito da alma, em frente ao espelho é onde se dão as mais fantasiosas criações.
Qual a punição, então, sobre o roubo da matéria pulsante quando a virtude reclama para si todos os vícios?
Ante o próprio vício da virtude, a alma retém a tensão em plenos pulmões, mas, fugídio, o instante-já desfalece e se (re) dobra no vapor dele mesmo, deslocando-se, assim, junto a pura matéria da virtude. Logo, no tempo suspenso, rompe-se a relação com o espaço, fazendo com que o procure na escuridão gélida da noite.
Desfaz-se a crise em ardente fogo, tomba à guilhotina da percepção e retoma na coexistência o semblante frente aos espelhos paralelos. Existe algo de perturbador no infinito, aprazível como o crepúsculo opulento.

E na otomana repousam os pés, a inspiração desse momento-eterno onde o texto basta por si só, assim como o encontro de-si em outrem na pululante madrugada.

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Esfinge

Fim. O relógio marcava quatorze horas. Um dia a menos, um dia a mais. Franz apanhou o paletó e seguiu em direção à porta. Girou a maçaneta e frouxou o nó da gravata. Entrou no carro, por alguns instantes pensou no calor insuportável, mas preferiu deixar de lado, a brisa era fresca e o carro andava rápido.
Chegou à sala de espera e já era aguardado. Alguns minutos depois entrou na sala. Na mesma poltrona de sempre ele o aguardava. “Boa tarde”, disse Franz. Com certa comicidade “Tarde boa e quente”, replicou. – Sente. Concluiu.
- Há algo de novo; mudou o estofado?
- Analítico. Não quer sentar?
- Hm, é estranho, novo demais e diferente demais.
Franz sentou-se no chão, certamente uma mudança brusca como aquela o havia causado, em algum nível, certa náusea.
- Além da mudança, notou mais alguma coisa nova?
- Ironicamente ver um cinzeiro num lugar onde não se pode fumar é algo estranho, mas não quero falar nada pior.
- Você pode fumar, se quiser.
- Estou bem.
Num impulso quase defensivo, Franz acendeu um cigarro. “Não vejo razão para trocar o estofado, sério mesmo. Qual era o problema com o outro?”
- Você quer falar sobre isso?
- Não. Não, de forma alguma. Mas também não sei sobre o que falar. Faz algum tempo, muito mudou, e nada mudou.
Com um sorriso único e frio, ele riu do comentário. “Sempre tudo muda, mas nada muda!”.
- Pode soar engraçado, no entanto é verdade. E outra verdade é que não sei por onde começar, simples seria sentar e observar como minha cabeça está agora. Enfim, já sei, normalmente é fácil perceber o quão rápido as coisas passam, os dias parecem mais curtos e a noite rende muito mais e em diversos sentidos. Nem mesmo o mais vil e cruel sono é incapaz de abater a presa. De alguma forma, quando o faz, em suas garras carrega o mesmo sonho.
Me vejo arrastado pelo menos corredor ladrilhado por hexágonos perturbadoramente simétricos, mas a sensação não é ruim. Por duas ou três vezes vislumbrei um quadro ao fim do corredor. Depois tudo escurece e tenho o quadro nas mãos e, no entanto, não consigo decifrar o que me diz.
Há um casal sentado, não os reconheço, mas são familiares e junto deles há uma criança.
-Você mergulha nesse corredor, é interessante a ausência do medo, talvez. E o que acontece?
- Eu acordo e a sensação é boa.
- E é em sigilo silencioso?
- Não, é mímica, distorção, já é um reflexo, uma imagem a me olhar e não a consigo ler, apenas uma poderosa forma onde o vermelho recobre a parte superior, mas não me fere os olhos ou sentidos.
Existe algo dissonante na ação em si, não sei ao certo se olho o quadro ou se, do quadro, me observam como quem aguarda o trem ou um ônibus.
- Você se sente invadido?
- Não, é cíclico, mas não invasivo, complementar, em um sentido mais amplo. Mesmo assim não é isso o que mais me apraz, existe algo a mais, algo além do que há por si só, algo além de mim, tange o metafísico em essência a engendrar o vislumbre em si enquanto forma renovadora.
Irrompe na matéria pulsante enquanto luz desbravadora, acontece no mesmo tom carmesin do opulento crepúsculo, e se desfaz em pronto divagar de si na forma dos mesmos tentáculos que lança a mim na escuridão.
Afaga a nuca com dedos mornos a embalar cabelos envoltos em chamas. Nas chamas o brilho reluz na aurora do minuto a passar em ânsia. Existe algo inexplicável, esse algo manter-se-á dessa forma. Vem sei não és dado aos enigmas da alma e dos planos dados ao espírito.
Bem sei, mas é como adentrar um rio durante a madrugada quente, onde as pedras sempre são banhadas por águas geladas e a alma acolhe o frio de boa a pura vontade. Por pura e adorada vontade desfeita em flor a deleitar-se no puro rio. E tudo desdobra-se em perfeito fluxo, tão perfeito quanto o rio, como a natureza em si.
-Vejo que muito mudou, então. Mudou naquilo que tange o conteúdo, isso é deveras importante, ainda mais ao falar de si sem interpor barreiras diversas. É essa mudança que o impede de sentar-se senão no chão?
- Não! Esse estofado. Entrar aqui é como estar despido de todas as defesas, é incompreensível conseguir repousar o corpo sem defesas em um lugar desconhecido e estranho.
- Justo.
- Então, o que há de novo senão a renovação da esperança? Eis à luz da nova aurora onde desfaleço pesadamente ao lado da própria ideia, uma presença que, mesmo ausente enquanto princípio físico, completa de forma bela e despudorada.
Por isso meu caminhar ébrio retorna ao ponto onde se enlaça o recomeço, sei o aspecto denso dessa divagação, mas o que mais eu poderia fazer além de falar de mim mesmo em uma perceira pessoa?
- Entendo.
- Pois é.
Aos passos silenciosos do relógio, Franz percebe seu tempo chegando ao fim. Há algo além do mero caminhar de volta, estranhamente há um novo brilho no sol, até o farfalhar das árvores é sonoramente mais aprazível.

Há algo novo a pulsar. Ele entra no carro, gira a chave, acelera e sente o calmo palpitar no peito.

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Dupla Autoria & Orgasmos Múltiplos

Teu rosto brilhava no reflexo do fio de luz que entrava pela janela. O ocaso distendia seus tentáculos e a bruma tomava conta do lado de fora. Eis, então, defronte ao espelho tua pele reluzia o encanto dos vapores. Teus lábios mergulhavam de vez em vez na taça de vinho. Em algum nível obscuro camuflavas um olhar tímido e cruel.
Vestias uma fina pele, mesmo com a noite morna, não deixaste de lado a pele. Sentado do outro lado do quarto, eu te observava com um riso debochado e sádico. De fato fui maldoso ao te amarrar próxima a cama e sentar-me numa poltrona mais afastada, a bem da verdade, te observar me fazia tomado por deliciosos arrepios.
Há duas horas teu corpo sofria com os meus toques e tua libido encalusurada por amarras de seda, sofria com o efeito do mesmo veneno. Teu sexo fustigado pelos meus dedos jazia embebido em néctar enquanto tuas pernas tinham espasmos a cada toque dos meus dedos. E eu voltava a sentar e te observar.
Eis que me ajoelho ao teu lado, beijo de leve tua boca enquanto minha mão sobe pelas tuas pernas. Mordo teu lábio, a mão sobe pela tua perna...Teus seios expostos sob a pele, mordo; minha mão toca teu sexo molhado, brinco com os dedos. Sinto tua respiração forte e teu sexo pulsando. Volto pra tua boca, enfio os dedos entre as tuas pernas... te beijo enquanto meus dedos se contorcem dentro de ti.
Paro.
Encho a boca com um gole de vinho, te beijo de novo, o vinho escorre pela tua boca e mancha o teu corpo. Levanto e saio.
“Vais suportar meus devaneios por uma vida inteira?” – “Sim.” Tu me respondes.
Surrar-te nos meus amores, te morder em desvarios, tocar teu sexo como quem profana o sagrado. Deleitar-me com teu gozo e afoito te tomar nos braços como um déspota piedoso e dono dos teus amores. Despontas na dor o rubro do teu sangue na tua pele pálida.
Então te entregas ao teu dono a adentrar teu corpo em fálico amor que vibra uníssone ao pulsar do próprio coração. Eis teu sexo a me engolir, faminto, molhado, sedento... Fodo como quem procura a fonte da vida. Tuas mãos amarradas ainda te impedem de qualquer movimento, te invado como uma explosão de calores.
Na única reação capaz de esboçares “Sou tua escrava”, replico em tom quase inaudível “Sou teu dono”.
Permita-me te contar uma história, nem sempre fui o martelo, já fui bigorna, como diria Fausto, “na vida ou tu és a bigorna ou o martelo”, e eu fui bigorna. Lembro-me, estremeci ante a face debochada e impiedosa, calei-me entre tapadas e chibatadas.
A mão pesava sobre meu corpo dilacerado em arranhões, as marcas dos dentes formavam o mais belo e cruel mosaico. Em um trocar de segundos, ela se transformara na mais impiedosa das amantes. Carne, unhas; os cabelos brilhavam em ardentes chamas voluptuosas. Ao me tomar com os lábios, mantinha a certeza de que não me faltassem arranhões pelas pernas. Amarrado, assim como estás agora, eu era tomado pelos golpes mais amorosamente desferidos.
Eu poderia tremer frente ao açoite, mas não, eu, ultra-sensual libertino, estava entregue às mãos da minha impiedosa Vênus. O gozo volúvel tomou conta de nós dois, incontrolados e sem razão, essa foi a forma como ficamos eu e ela.
- Por qual razão fazes isso, desgraçado? Me consome em delírios com as tuas palavras, tuas libertinagens.
- Não percebes que falo de ti, minha musa? Não percebes que foste a única a completar-me nos mais perturbadores delírios?
Tuas mãos imóveis foram desamarradas, teus braços marcados pendiam trêmulos como teu corpo. Te levei no colo até a cama, depositei teu corpo sobre os lençóis aquecidos, bebi outro gole de vinho, beijei tua boca enquanto minha mão brincava entre as tuas pernas molhadas. Mordendo tua boca, penetrei teu sexo. Era fogo e gasolina, teu sexo quente me abraçava como uma amante doentia.
Eu sentia tuas unhas marcando as minhas costas, procuravas o meu pescoço, minha boca, mordias... Trepávamos como o mesmo furor da jovialidade, o que mudara foram as marcas deixadas por nós em nossos corpos, eternas lembranças.


O gozo jorrou quente, queimando tudo pelo caminho, teu corpo embebido com meu líquido vibrava junto ao meu. Um beijo, um olhar. O mesmo carinho pervertido dos perturbadores amores.

Frederico Fagundes e Jessica Pinheiro.

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Espelho no teto.

Obtuso à imagem de si, no lusco-fusco onde retrai sua própria existência para então a distender em direção a outrem. Reflexo da escolha no ato do encontro entre nos nossos corpos encolerizados de tesão. Como fogo a crepitar sob uma garrafa de gasolina, é dessa forma que esse olhar pedante observa o tirar das tuas roupas.
Teus cabelos em chamas a cortar o ar como um espetáculo de fogos de artifício; e é no reflexo do espelho que tua imagem se torna infinita e desdobra-se ad aeternum. Resplandece no teu pouso em leito ímpia embriagar-se no no ébrio corpo que penetra teus sentidos e derrama em ti o gozo eterno.
Eis, entre tua pele e teu sexo, entre tua alma e teus amores onde repousa pacífico o tênue limiar entre a dor e o prazer; lugar donde, pelo espelho, vejo o sangue rubro a escorrer em carne e desfolhar na dor nossa sinfonia de prazeres.

Perverso o olhar que te encara. Regado ao escárnio da tua pergunta – Quem é tua dona? – debochado e petulante olhar que penetra tua alma e te estremece ao peso do próprio gesto. E é nesse lugar, no espelho, onde se dissipa a essência ultra-sensual, o amor dos nossos corpos percorre a alma em um piscar de olhos.

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Do nefasto ao impropério da jovialidade

Aventureiros ou, também chamados, ladrões de tumbas sempre faziam suas riquezas nas épocas de intensa enfermidade, alguns eram nobres e outros apenas compunham a grande massa, os pobres. Talvez, se a prostituição é a mais antiga forma de trabalho para a mulher, com quase toda a certeza, o roubo o era para os homens.
            Afora bandidos comuns, aqueles desprovidos de audácia e técnicas de subterfúgio, existiam os ladrões que possuíam algum tipo de especialidade, um desses grupos eram os ladrões de tumbas. Estranho pensar dessa forma, mas a época conceitualizou bastante o grau de dificuldade e “nobreza” desta “profissão”. Os padres, figuras representativas de Deus, detinham o poder sobre as mentes e riquezas de quase todos. O misticismo ordenava a vida das pessoas; tumbas, sarcófagos, mausoléus eram, praticamente, lugares amaldiçoados. Os nobres eram sempre enterrados com suas jóias e em seus mausoléus repousavam seus pertences mais valiosos, é nesse ponto que começa a história.
            Johnnie era um destes andarilhos, nasceu sob o véu da pobreza, tinha seu pai com os olhos vazados e sua mãe provia o alimento de uma pequena horta no fundo da casa. Os feudos exarcebavam todo seu poder e riqueza, os nobres enclausuravam-se em seus aposentos, pois temiam a praga e os plebeus.
            Aos dezoito anos completos,  Johnnie perdeu seus pais para a praga. Enterrados em cova rasa – por sorte, pois muitos não tinham tamanha benção e eram empilhados dentro de um buraco - , o (sobre)vivente não tinha mais escolha, o mundo devastador e cruel o chamava para a morte. Como a maioria dos pobres, não tinha instrução alguma, contava apenas com seu grande porte, sua perspicácia e seu carisma, as únicas armas que, no momento, nosso herói dispunha, além de um pequeno punhal, contudo, de fato, nem como arma o pedaço de metal podia ser classificado.
            Com a Europa, quase em sua totalidade, devastada pela praga, empregos já não mais existiam, as poucas mulheres saudáveis vendiam seus corpos por qualquer moeda de ouro e os soldados temiam por invasões.
            Em uma taverna quase vazia, um homem encapuzado estava sentado em um dos cantos, fumava de um cachimbo longo e curvilíneo, ninguém o conhecia e muitos o temiam, de fato a aparência era assustadora. O homem tem sua atenção chamada enquanto o rapaz adentrava o lugar.
            - Sente-se aqui, rapaz. Anda, senta. É seu tipo mesmo que procuro.
            - Meu tipo? O que queres? Não o conheço.
            O sorriso carregado de ironia já era prelúdio do que esperava o jovem. Não que um sorriso carregado de ironia sempre esconda más intenções, mas com certeza boas não eram.
            - Nomes não interessam, meu jovem. Apenas quero lhe oferecer um trabalho honesto. Os tempos são negros e, pelo seu jeito, não tens de onde tirar o pão para comer. Qual trabalho não é honesto quando se trata de encher a barriga?
            Adiante da conversa, pois não se faz tão necessária. Mesmo com um porte majestoso, o rapaz teve qualquer erudição e boa retórica ceifadas pela pobreza... Johnnie consternado com a oferta segue seus pensamentos e se despe de toda sua pudicícia e medo. O homem tinha razão, em tempos de doença e fome nenhum trabalho é desonesto. Mas a idéia de violar o templo dos mortos lhe soava por demais macabra, claramente, com criação católica um menino temente a Deus, em sã consciência, não aceitaria sem mais demoras tal idéia. – O dinheiro falara-lhe mais alto.
            Incumbido de sua primeira “missão”: As pérolas da condessa. Para Johnnie tudo parecia simples, superados os medos, era apenas entrar no mausoléu, abrir o caixão, retirar do pescoço da falecida as pérolas, sair sem deixar rastros e o dinheiro saciaria sua fome.
            Chegada a noite do grande momento, os mais nefastos pensamentos tomavam conta da cabeça deste herói. O medo causava repulsas, a vontade de vomitar era constante. O temor de cemitérios lhe era constante à luz do dia, quem dirá a noite, momento em que as almas estão à solta.
            O cemitério era grande e repleto de mausoléus, no caminho algumas sepulturas violadas, esqueletos revirados sob a terra, ratos; cada ícone desta moldura era um peso na balança do terror. O céu estava nublado e havia prelúdio de chuva. O ladrão novato seguia firme, poupava-se dos tremores que os ratos lhe causavam, andava pelas sombras e o mais rápido que podia. O coveiro morava em um casebre ao lado do cemitério e essa era uma das preocupações mais salientes.
            Após alguns minutos de caminhada, Johnnie chega ao passadiço do mausoléu. O tamanho do lugar era maior do que a casa em que viveu sua vida inteira, - antiga casa, pois depois do passamento de seus pais a casa havia sido queimada, afim de não restar nada da peste. A arquitetura gótica do lugar causava-lhe pânico, por anos a igreja lhe serviu de abrigo dos invasores, e agora ele é o invasor. Empurrou a porta. Ao adentrar o recinto sentiu um agradável aroma de lírios e jasmins que enfeitavam a sepultura da condessa, inebriado, o ladrão percorre os quatro cantos do mausoléu. Aturdido pelo aroma e beleza do lugar, senta-se no chão e divaga sobre as belezas da nobreza.
            Findada sua divagação, ele levanta e observa o caixão por alguns minutos. Admira a beleza de todas as coisas que a riqueza provém. Estático pensa se o que estava a fazer é certo; afasta os pensamentos e mantém seu foco no que lhe é, realmente, importante.
            Abre a tampa do caixão, o frio permitira ao corpo manter-se inteiro, não havia mau cheiro; sob a mortalha o semblante mais se assemelhava a imagem de uma boneca, tamanha era a perfeição daqueles traços, o cheiro da pele, as roupas. A pele branca facilmente confundir-se-ia com o branco dos lírios e jasmins que enfeitavam o mausoléu. Ele não conseguia desviar o olhar daquela beleza encantadora, jamais vira uma dama tão linda, jamais fitara tamanha beleza. Seus pensamentos voltaram-se apenas para a serena nuance daquela bela que logo após ser desposada padeceu à febre.
            O desvario do rapaz se torna visível às almas penadas que por ali caminhavam, uma sensação tomou conta daquele corpo, até então, inocente. Não resistindo ao impulso, Johnnie toma nos braços a defunta beijando sua tez, o pescoço. Coloca o sudário no chão e repousa o corpo sobre o tecido. Se despe das roupas – o frio não era mais problema agora – retira vagarosamente cada peça de roupa da falecida; absorto pela visão daquele magnífico corpo, se entrega aos beijos incansáveis. Fora como se a vida tangesse novamente a condessa que, nos braços daquele necrófilo punguista, tinha sua morte violada e seu ventre preenchido pelo líquido seminal de um ladrão.
            Debruçado sobre o corpo da condessa, ainda sofrendo de tremores, o necrófilo desvairado retoma a plenitude de suas faculdades mentais – que de plenas só possuem a insanidade – e percebe seu louco desvario. Foi como se a peste o acometesse, como se o fel se derramasse sobre seu sangue e tocasse o cérebro; despido, incontrolável. O jovem padecia sobre seu próprio veneno.
            Inconformado com tamanha atrocidade saca o punhal herdado do pai, desfaz-se de sua própria vida... Seu sangue inebriado em volúpias se esvai. Suas últimas palavras: - Ao lado da única que amei.

            Talvez pareça tolo, mas é fato que essas atitudes eram comuns entre os ladrões de tumba, muita vezes o frio acalmava a peste e mantinha corpos intactos. Era a maneira de saciar a libido e esconder-se da inquisição, pois essa nem os julgava, apenas condenava a fogueira. Pouco se sabe sobre estes ladrões, a fama não passava de algo escondido sob os tapetes de um submundo criminoso instaurado na época, nomes jamais eram revelados. Grande perda para a história, pois quando a peste negra atacou a Europa, além dos nobres, eram os ladrões e as prostitutas que moviam a economia.

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Inação

Coisa. O verbo não verbo de sua própria impureza. E então o verbo, logo vida. O finito infinito do fim, eis sua morte. Tudo estático no imenso vazio, flores sem vida, rios igualmente sem vida, silêncio. A imensidão do tédio no mundo inanimado das coisas vivas. Uma camada plástica, apenas maquiagem, máscaras, sufocamento, arrepios. O sangue morno no rosto, um calafrio.
Crime. A ação e morte no mesmo lugar do eterno.
O sopro, o verbo, a força das pás elétricas. Ele voltou, temos verbo.

domingo, 16 de junho de 2013

M. & G.

Hoje acordei com uma saudade diferente, uma saudade especial; maior, mais intensa. A contínua sensação da distância, física, espiritual. Saudade daqueles almoços em família, saudade de ficar ao redor da churrasqueira esgueirando e pedindo pedaços de carne. Saudade de ir correndo na cozinha e perguntar o que havia de sobremesa.
Acordei com a lembrança e a presença da ausência. Um estranho vazio; necessidade daquele afago que só eles eram capazes de me proporcionar. Entendo a distância, entendo a relatividade de toda a situação. Pode o tempo ter passado, mas ainda não me acostumei, sempre tenho a sensação de estar esperando chegar em casa.
Chovia e a chuva o levou para longe. Fazia sol e para a luz foste levada. Estranho como variações climáticas fazem com que eu me recorde. Já faz tempo e eu ainda lembro, mantenho a nítida sensação, a dor trucidante, a dor que me lacerou a alma, destruiu uma parte de mim. Duas vezes.

No final, se foram os dedos e outros disputaram os anéis. Preferia os dedos, mesmo que fossem para apontar e dizer: “Sai daqui”.
Jaz mais um domingo triste sem eles.

domingo, 3 de março de 2013

Murmúrio Do Sonhador


Penso que não há outra saída, senão a própria virtude da honestidade, personagem emboscado entre a parede e a própria consciência da necessidade de lhe falar. Penso. Apenas penso e as palavras morrem. Tenho medo de ser sincero, de dizer que não findou-se, entretanto temo o próprio medo. Obtuso pensamento a me perseguir. Questionamento infindável advindo do próprio delírio e do torpor de não saber como me sinto.
Fumaça. Eterna companheira, o filtro vermelho jaz nos lábios. E novamente me pego pensando. Apenas isso, e eu penso o dia inteiro. Apenas uma palavra e eu gostaria de te tomar para mim. Te levar para longe, onde eu possa desfrutar dos teus amores. Uma noite seria suficiente para eu me embriagar nos teus carinhos, nas tuas volúpias. Na impossibilidade de ser teu.
Ó sofreguidão sem zelo, quase soa como um deleite póstumo de um coração pútrido. O vinho embriag’alma enquanto tua imagem permanece no âmago ébrio solitário que palpita aos teus dizeres. Como podes, tu, dama da lua, fazer-me dessa forma divagar? Tropego em meio à frases versadas; na tentativa diletante de transformar-te em versos, pois os versos se transmutam em parágrafos pela impossibilidade poética de acolher os vislumbre que tenho de ti.
Uma noite eu tive um sonho, e tudo era lindo. O mundo nos pertencia e a areia da praia era morna. Tua mão pairava sobre meu rosto. Crescia no amálgama do toque a pura sensação do gosto. O gosto do gozo, o gosto de gozar a tua presença. E nada mais havia. O velho sôfrego dera lugar à poesia. E a alma jazia no absoluto da infinitude. E eu sabia, o sonho acabaria e tudo desfar-se-ia.
E eu acordei. Acordei e sonhei acerca do dia em que tua mão em mim tocaria. E tudo far-se-ia novamente alegre.